Crianças, Fala e Audição: Impactos do Uso Excessivo de Telas
O uso de telas faz parte da rotina de muitas famílias, seja por lazer, escola, comunicação, ou para aliviar a correria do dia a dia. Em si, a tecnologia não é inimiga do desenvolvimento infantil, mas o excesso, a falta de mediação e a troca de experiências reais por estímulos digitais rápidos podem afetar de maneira importante a fala, a linguagem, a atenção e até a saúde auditiva. Crianças aprendem a se comunicar em contato direto com pessoas, em interação viva, com turnos de fala, expressões faciais, gestos, silêncio, repetição, erro e correção natural. Quando a tela ocupa tempo demais, há menos oportunidades para esse treino essencial.
Além disso, muitas interações digitais trazem som em volume inadequado, uso frequente de fones, exposição a ruídos e estímulos sonoros constantes. Isso pode não apenas cansar o sistema auditivo, mas também mascarar sinais precoces de dificuldade de audição, atrasar o reconhecimento de alterações auditivas e dificultar a construção de habilidades de escuta em ambientes reais, onde é preciso separar fala de ruído, interpretar intenção, emoção e contexto.
A seguir, um conjunto de pontos práticos, em formato de lista, para compreender os impactos do uso excessivo de telas em crianças, e principalmente para agir com estratégias simples, consistentes e baseadas em rotina, diálogo e saúde auditiva.
1) Entenda por que a interação humana é o motor da fala e da linguagem
Crianças não aprendem linguagem apenas ouvindo palavras, elas aprendem participando de trocas. O desenvolvimento de fala e linguagem depende de atenção compartilhada, olhar, intenção comunicativa, turnos de conversa e feedback do adulto. Quando a criança aponta, balbucia, pergunta ou erra uma palavra, o adulto responde, amplia, corrige de forma natural e dá significado. Na tela, principalmente em conteúdo passivo, a criança recebe estímulo pronto e rápido, com poucas pausas para ela tentar se expressar. Isso reduz o treino de esperar a vez, formular frases, sustentar diálogo e lidar com frustração comunicativa.
Mesmo conteúdos educativos podem falhar em promover linguagem se forem usados como substitutos da interação presencial. A linguagem se organiza dentro de vínculos. Sem vínculo, a criança pode repetir frases prontas, imitar entonações, mas ter dificuldade de usar a fala para resolver problemas, contar eventos, negociar com colegas e expressar emoções.
2) Diferencie fala, linguagem e comunicação, e observe o que a tela pode comprometer
Fala é a produção dos sons, articulação e clareza. Linguagem é o sistema de compreensão e expressão, vocabulário, gramática, narrativa e pragmática. Comunicação inclui os gestos, o olhar, a intenção e o uso social do que se fala. O uso excessivo de telas pode impactar os três níveis, mas o mais comum é comprometer linguagem e comunicação. A criança pode falar muito, mas falar de forma pouco funcional, com dificuldade de manter conversa, iniciar diálogos, responder perguntas abertas ou compreender instruções complexas.
Preste atenção em sinais como vocabulário pobre para a idade, uso de frases curtas quando já seria esperado mais complexidade, dificuldade de contar uma história com começo, meio e fim, preferência por repetir falas de personagens, irritação quando precisa explicar algo, e baixa tolerância a conversas sem estímulo visual. Também observe se há pouca iniciativa comunicativa, se a criança aponta menos, faz menos perguntas, e parece mais interessada na tela do que em compartilhar experiências.
3) Reconheça os sinais de alerta de atraso de linguagem possivelmente relacionados a telas
Nem todo atraso é causado por tela, mas o excesso pode ser um fator de risco, principalmente quando começa cedo e ocupa muitas horas diárias. É importante considerar o cenário completo, sono, alimentação, interação familiar, creche, brincadeiras e histórico de saúde. Alguns sinais de alerta que merecem atenção incluem menos balbucio e menos respostas a vozes no primeiro ano, poucas palavras por volta de 18 meses, pouca combinação de palavras próximo aos 2 anos, dificuldade significativa de compreensão de comandos simples, e regressão, quando a criança para de falar o que falava.
Outros sinais frequentes são irritação quando a tela é retirada, transições difíceis, explosões de raiva em situações de espera, e preferência por estímulos rápidos. Essas reações podem fortalecer o ciclo de oferecimento de tela para acalmar, reduzindo ainda mais oportunidade de comunicação real. Quanto mais cedo a família reconhece o risco, mais cedo é possível reorganizar rotina e procurar avaliação quando necessário.
4) Considere o efeito da tela na atenção auditiva e na escuta ativa
Audição não é só ouvir, é processar o que se ouve. Atenção auditiva envolve selecionar a fala relevante e inibir ruídos concorrentes. Em vídeos e jogos, o som costuma ser limpo, direto e acompanhado de imagem que explica. Na vida real, a fala vem com ruído de fundo, distância, eco e múltiplas pessoas. Crianças que passam tempo excessivo em ambiente digital podem apresentar mais dificuldade de escuta em sala de aula, em festas, no carro, ou em ambientes com muitos sons, porque não treinaram o cérebro a lidar com essa complexidade.
Observe se a criança se distrai facilmente, pede repetição com frequência, parece não atender quando chamada, confunde instruções, ou entende melhor quando você mostra com gestos. Esses sinais podem aparecer tanto em alterações auditivas quanto em dificuldades de processamento auditivo e atenção. Independentemente da causa, a higiene de telas e a reintrodução de brincadeiras e conversas sem estímulos excessivos ajudam a fortalecer a escuta ativa.
5) Avalie o risco auditivo do volume, do tempo de exposição e do uso de fones
O ouvido infantil é sensível, e a exposição a som intenso por tempo prolongado pode aumentar o risco de dano auditivo, zumbido e hipersensibilidade sonora. O risco não depende apenas do volume máximo, mas do produto volume vezes tempo. Muitas crianças usam fones por longos períodos, muitas vezes em volume alto para vencer ruído externo. Isso é especialmente preocupante em ambientes como carro, rua, casa com TV alta, ou durante tarefas escolares com vídeos.
Alguns sinais de que o som pode estar alto demais incluem vazamento de áudio do fone para quem está ao lado, a criança não ouvir quando alguém chama, ou reclamar de chiado ou ouvido tampado após uso prolongado. Estratégias simples incluem preferir caixas de som em volume moderado em vez de fones, limitar o tempo, escolher fones com bom isolamento para não precisar aumentar volume, e ensinar a criança a reconhecer desconforto auditivo. Também é importante lembrar que bebês e crianças pequenas não deveriam usar fones como rotina.
6) Entenda como telas podem mascarar perda auditiva e atrasar diagnóstico
Quando a criança passa muito tempo em tela, os adultos podem confundir respostas visuais com respostas auditivas. A criança pode parecer entender, mas na verdade está se guiando pelas imagens, legendas, padrões repetitivos e contexto previsível. Se houver uma perda auditiva leve, flutuante, ou unilateral, o comportamento pode passar despercebido por mais tempo. Além disso, a tela pode reduzir o número de momentos em que a criança precisa realmente ouvir instruções sem pistas visuais, como acontece em conversa, brincadeira, leitura compartilhada e atividades ao ar livre.
O resultado é atraso em perceber sinais como pedidos frequentes de repetição, confusão de palavras parecidas, dificuldade com sons de fala, e cansaço em ambientes ruidosos. Se houver qualquer suspeita, é essencial avaliar audição com exames apropriados para idade, e não esperar apenas a escola sinalizar dificuldades. O diagnóstico precoce é um dos fatores que mais favorecem desenvolvimento de linguagem e desempenho escolar.
7) Observe a relação entre telas, sono e desenvolvimento de linguagem
Sono é um organizador do cérebro infantil. É durante o sono que ocorre consolidação de memória, inclusive de palavras novas, habilidades de escuta e aprendizagem escolar. O uso de telas à noite pode atrasar o início do sono, reduzir qualidade do descanso e aumentar despertares. Além disso, conteúdos estimulantes perto da hora de dormir podem aumentar irritabilidade e dificultar autorregulação. Com sono ruim, a criança pode apresentar pior atenção, mais agitação, menos paciência para conversar e brincar, e maior dependência de telas para se acalmar.
Uma rotina protetora inclui encerrar telas bem antes do horário de dormir e substituí-las por banho, luz baixa, história contada, leitura compartilhada, conversa sobre o dia e músicas suaves em volume baixo. Esses momentos também são oportunidades ricas para vocabulário, narrativa, compreensão, e vínculo. A criança aprende a nomear sentimentos, organizar acontecimentos, e escutar com calma.
8) Entenda como telas podem aumentar ruído ambiental e prejudicar a escuta em casa
Mesmo quando a criança não está diretamente na tela, muitos lares mantêm TV ligada de fundo. Esse ruído constante compete com a fala dos adultos e reduz a qualidade da linguagem que a criança recebe. Crianças precisam ouvir fala clara, com pausas, e em quantidade suficiente, mas também precisam de silêncio para processar. O excesso de som de fundo pode fazer o adulto falar mais alto, encurtar conversas e desistir de interações longas. A criança, por sua vez, pode perder pistas de linguagem e praticar menos a escuta seletiva.
Uma dica prática é criar blocos do dia com casa mais silenciosa, sem TV de fundo, e com música apenas em momentos intencionais. Em uma sala com menos ruído, a criança ouve melhor, faz mais perguntas e participa mais. Isso ajuda tanto crianças com audição normal quanto aquelas com otites recorrentes, perdas flutuantes, ou dificuldades de processamento auditivo.
9) Tenha atenção especial na primeira infância, quando o cérebro está mais sensível a experiências
Os primeiros anos de vida são uma janela crítica para linguagem. Bebês precisam ouvir fala direcionada, olhar para o rosto do cuidador, e experimentar turnos simples, como o adulto fazer uma pergunta e esperar a resposta, mesmo que seja um gesto. Quando a tela entra muito cedo, ocorre substituição de um tipo de estímulo que o cérebro espera por outro que é mais rápido e menos contingente à ação da criança. A criança se acostuma a receber estímulos sem precisar iniciar comunicação.
Na prática, isso pode se traduzir em menos balbucio social, menos imitação de sons em contexto de brincadeira, e menos tentativas de nomear objetos. O antídoto não é apenas reduzir telas, mas enriquecer o dia com fala afetuosa, brincadeiras com objetos reais, músicas cantadas em conjunto, leitura e passeios com nomeação do ambiente.
10) Reduza o uso passivo, e transforme parte do tempo de tela em experiência interativa mediada
Quando a tela é usada, a mediação do adulto faz diferença. Assistir junto e comentar o que aparece, fazer perguntas, pausar e pedir que a criança conte o que entendeu, relacionar com experiências reais, tudo isso cria linguagem. Sem mediação, a criança tende a consumir conteúdo de forma passiva, trocando rapidamente de vídeos, com pouca profundidade. Essa alternância rápida pode dificultar a capacidade de sustentar atenção em uma tarefa sem recompensa imediata.
Uma estratégia útil é escolher conteúdos com ritmo mais calmo, menos cortes, e adequados à idade, e usá-los como gatilho para conversa, não como babá digital. Por exemplo, após um vídeo sobre animais, brincar de fazenda, desenhar, imitar sons e criar uma história. O importante é que a criança use palavras para agir no mundo, e não apenas para repetir sons da tela.
11) Substitua tela por brincadeiras que treinam audição, fala e linguagem de forma natural
Brincadeiras simples conseguem trabalhar muitas habilidades ao mesmo tempo. Esconde-esconde com voz, jogo do telefone sem fio adaptado à idade, caça ao tesouro com pistas verbais, brincadeira de adivinhação, histórias em sequência, e teatro com bonecos. Jogos de turnos, como dominó, memória e quebra-cabeça, também ajudam, porque exigem esperar, planejar e explicar. Atividades de cozinha são excelentes, porque envolvem sequências, vocabulário, medidas, texturas e ações.
Para audição, use brincadeiras de localizar sons, identificar de onde vem, discriminar sons parecidos, e seguir comandos em etapas. Para fala, trabalhe rimas, trava-línguas leves e repetição com humor, mas sem pressão. Para linguagem, conte histórias com começo, meio e fim, e peça que a criança reconte do jeito dela. O objetivo é aumentar o tempo de interação de qualidade, sem depender de estímulos digitais.
12) Fortaleça rotina de leitura compartilhada, mesmo que sejam poucos minutos por dia
Leitura compartilhada é uma das ferramentas mais poderosas para linguagem. Não precisa ser uma leitura perfeita, nem longa. O que importa é o adulto estar presente, apontar, comentar figuras, fazer a criança completar frases, prever o que acontecerá e relacionar com a vida. Livros oferecem vocabulário mais rico do que conversas do dia a dia, e ajudam a criança a entender estruturas narrativas e gramática.
Se a criança está muito acostumada com tela, ela pode resistir no começo. Comece com livros curtos, com temas de interesse, e aumente gradualmente. Faça voz de personagens, use expressões faciais e deixe a criança virar páginas. Para crianças maiores, revezem parágrafos, conversem sobre sentimentos dos personagens e faça perguntas que exijam explicação, como por que, como e o que você faria. Tudo isso cria linguagem e melhora atenção auditiva.
13) Cuidado com o mito do conteúdo educativo como justificativa para excesso
Conteúdo pode ser bom, mas não substitui as necessidades básicas de desenvolvimento. A criança precisa de movimento, brincadeira livre, interações com pares, habilidades motoras finas, experiências sensoriais e conversas reais. Mesmo aplicativos bem desenhados não conseguem replicar a riqueza de uma conversa olho no olho, onde o adulto ajusta a fala ao nível da criança, percebe sinais de cansaço, muda a estratégia e oferece suporte emocional.
Quando a tela vira a principal fonte de estímulo, a criança pode ter contato com muitas palavras, mas com pouca funcionalidade comunicativa. Ela pode reconhecer letras e números, mas ter dificuldade de pedir ajuda, contar algo que aconteceu, relatar dor, ou negociar com um amigo. O equilíbrio é usar a tecnologia como ferramenta complementar e intencional, nunca como base da rotina.
14) Garanta pausas auditivas e silenciosas para o sistema nervoso se reorganizar
O cérebro infantil precisa de pausas para não ficar em estado constante de alerta. Som contínuo, notificações, músicas e vídeos em sequência podem aumentar agitação e reduzir tolerância ao silêncio. Crianças precisam brincar sem trilha sonora constante, ouvir os sons do ambiente e do próprio corpo, e aprender a se acalmar sem estímulo externo intenso.
Inclua momentos diários de silêncio relativo, como desenhar, montar blocos, brincar de massinha, cuidar de plantas, caminhar no bairro e observar. Esses momentos são oportunidades para conversa espontânea e para a criança iniciar temas. Muitas vezes, as melhores falas aparecem quando a criança está relaxada e o adulto está disponível.
15) Repare na qualidade da fala dos adultos durante o dia, e não apenas no tempo de tela
Quando a família está cansada, é comum falar pouco, dar comandos curtos e recorrer a telas. Mas a qualidade da linguagem que a criança recebe conta muito. Tente usar frases completas, narrar ações do cotidiano, ampliar o que a criança diz, e oferecer escolhas verbais. Se a criança diz "bola", você pode responder "sim, a bola vermelha está rolando, vamos chutar forte ou fraco?". Esse tipo de expansão ensina vocabulário e estrutura de frase sem parecer aula.
Outra ferramenta é a técnica de espera, faça uma pergunta e aguarde alguns segundos. Muitas crianças precisam de tempo para organizar resposta. Se o adulto responde por ela rapidamente, a criança fala menos. Com telas, a velocidade é alta e não há espera. Em casa, crie um ritmo mais humano, com pausas e atenção.
16) Monitore emoções e comportamento, porque autorregulação influencia fala e aprendizado
Autorregulação é a capacidade de lidar com frustração, esperar, mudar de atividade e se acalmar. O uso excessivo de telas pode prejudicar essa habilidade, especialmente quando a criança recebe tela sempre que chora, fica entediada ou precisa esperar. Isso cria uma associação forte entre desconforto e alívio imediato, e a criança pode ter mais crises quando precisa usar linguagem para pedir, negociar ou explicar.
Ensine alternativas: pedir ajuda, respirar, escolher entre duas opções, usar um objeto de conforto, ou fazer uma atividade curta de movimento. Ao mesmo tempo, valide emoções com palavras, "você ficou bravo porque acabou o vídeo, eu entendo". Dar nome ao sentimento ensina linguagem emocional e reduz explosões. A fala cresce quando a criança sente que consegue se expressar e ser compreendida.
17) Atenção aos efeitos em ambientes escolares: sala de aula exige escuta em ruído
Na escola, a criança precisa entender fala do professor com colegas conversando, cadeiras arrastando e sons do ambiente. Isso demanda habilidades auditivas avançadas. Se a criança tem pouco treino de escuta em contextos reais e passa muito tempo com áudio direto no ouvido, ela pode se sentir perdida no ruído. O resultado pode parecer desatenção ou falta de interesse, mas pode ser esforço auditivo alto, que cansa e reduz desempenho.
Se houver queixas escolares, é importante avaliar audição, investigar histórico de otites, observar como a criança se sai em locais barulhentos e conversar com a escola sobre posicionamento em sala, redução de ruído e estratégias de instrução. Além disso, reduzir telas e aumentar atividades de conversa em casa pode melhorar significativamente a capacidade de acompanhar a aula.
18) Tenha cuidado com multitarefa digital, ela fragmenta atenção e linguagem
Assistir a um vídeo enquanto joga, alternar rapidamente entre aplicativos, ou usar duas telas ao mesmo tempo fragmenta a atenção e reduz profundidade de processamento. Linguagem exige construir significado, conectar ideias e manter memória de trabalho. Quando a criança vive em alternância constante, pode ter mais dificuldade em tarefas que exigem sequência, como contar uma história, seguir instruções com vários passos, ou explicar como fez algo.
Uma prática mais saudável é escolher uma atividade por vez. Se for tela, que seja uma coisa só, por tempo definido. Se for jogo, que seja jogo sem vídeo de fundo. Se for leitura, que seja leitura sem notificações. Isso treina foco, melhora a organização do discurso e reduz ansiedade por estímulo constante.
19) Crie regras simples e consistentes, e alinhe expectativas com todos os cuidadores
Um dos maiores desafios é a inconsistência. Se um cuidador permite livre acesso e outro tenta restringir, a criança aprende a negociar com choro e insistência. Defina regras claras: horários, duração, locais da casa, e tipos de conteúdo. Evite tela durante refeições e antes de dormir. Combine que a tela não é usada como primeira resposta para tédio. Planeje alternativas, como caixa de brinquedos, livros ao alcance, materiais de desenho e tarefas simples.
Também ajuda fazer acordos visuais para crianças maiores, com um quadro de rotina. A previsibilidade reduz conflitos. Ao retirar telas, antecipe, "faltam cinco minutos, depois vamos guardar". Use temporizador e mantenha o combinado. No começo pode ser difícil, mas com repetição a criança aprende a transição.
20) Ajuste ambiente e postura de escuta, para favorecer linguagem e audição no dia a dia
Falar com a criança olhando para ela, na altura do rosto, faz diferença. Evite dar instruções de longe, de costas ou com água correndo, porque isso reduz clareza acústica. Diminua ruído de fundo quando for conversar ou dar orientações importantes. Use frases curtas em etapas para crianças pequenas, e aumente a complexidade conforme elas conseguem.
Para crianças com suspeita de dificuldade auditiva, essas medidas são ainda mais importantes. Boa iluminação para leitura labial natural, falar com articulação clara e velocidade moderada, e checar compreensão pedindo que a criança repita com as próprias palavras. Isso não é teste, é apoio. Quanto mais experiências de comunicação bem-sucedidas, mais vontade a criança tem de falar.
21) Não ignore otites, alergias e respiração oral, pois impactam audição e fala
Muitas dificuldades de linguagem atribuídas a telas têm também componentes de saúde. Otites de repetição podem causar perda auditiva condutiva flutuante, e a criança pode ouvir bem em um período e mal em outro. Alergias respiratórias e aumento de adenóide podem levar a respiração oral, alterações de sono e prejuízo de atenção. Tudo isso pode reduzir qualidade de escuta, aumentar cansaço e afetar aquisição de sons da fala.
Se a criança ronca, respira pela boca, tem nariz entupido frequente, ou teve muitas otites, vale investigar com profissionais de saúde. Uma avaliação audiológica com exames como audiometria, imitanciometria e, quando indicado, testes específicos, pode esclarecer. O cuidado integrado, saúde respiratória, audição e rotina de linguagem em casa, traz resultados melhores do que focar em apenas um fator.
22) Entenda quando procurar avaliação fonoaudiológica e audiológica
Procure avaliação se há atraso de fala, dificuldade de compreensão, troca persistente de sons fora do esperado para idade, voz alterada, gagueira com sofrimento, ou dificuldades sociais de comunicação. Procure avaliação auditiva se a criança aumenta volume, pede repetição, parece não ouvir quando chamada, tem histórico de otite, fala alto, troca fonemas de alta frequência, ou tem queixas escolares relacionadas a instruções e ditados.
O ideal é não esperar a situação ficar crítica. Intervenções precoces costumam ser mais rápidas e eficientes. A família também recebe orientações práticas para inserir linguagem no dia a dia e ajustar telas de forma realista. Em muitos casos, pequenas mudanças de rotina já trazem melhora de atenção, sono, comportamento e comunicação.
23) Faça um plano de redução gradual, para evitar rupturas e aumentar adesão
Se a criança já usa telas por muitas horas, cortar de uma vez pode gerar crises intensas, desgaste e desistência. Uma estratégia melhor é reduzir gradualmente e com intenção. Comece retirando telas de horários críticos, como refeições e antes de dormir. Depois reduza blocos longos, estabelecendo limites com timer. Em paralelo, ofereça substitutos atrativos, como brincadeiras novas, atividades ao ar livre e tempo de qualidade com o adulto.
Também é útil organizar o ambiente para reduzir tentação, deixar o tablet fora de alcance, desativar autoplay, remover aplicativos com rolagem infinita e criar uma pasta com poucos conteúdos aprovados. Quanto menos acessível e menos automático, mais fácil a família retomar controle. O objetivo é que a criança aprenda a lidar com tédio e a criar brincadeiras, isso é ouro para linguagem.
24) Use telas como ferramenta de inclusão e apoio, quando houver necessidade, mas com objetivos claros
Para algumas crianças, tecnologia pode ter papel positivo, como aplicativos de comunicação alternativa, recursos de amplificação, legendas e ferramentas terapêuticas. O ponto central é o objetivo e a mediação. Se uma tela é usada para apoiar fala, linguagem ou audição, ela deve estar integrada a um plano e não dominar a rotina. Mesmo recursos terapêuticos exigem generalização para a vida real, a criança precisa usar o que aprende para conversar com pessoas, não apenas com o dispositivo.
Se a criança usa aparelhos auditivos, por exemplo, é importante considerar o ambiente acústico, evitar volume excessivo e priorizar experiências auditivas ricas e variadas. Se há reabilitação vestibular ou queixas de tontura em crianças maiores, o excesso de telas também pode piorar sintomas em alguns casos, por estímulo visual intenso. Tudo deve ser individualizado.
25) Tenha um checklist prático para o dia a dia, e acompanhe evolução com calma
Para facilitar, use um checklist simples, e ajuste semanalmente. Pergunte: houve conversa em família hoje? Houve leitura? Houve brincadeira sem tela? Houve tempo ao ar livre? A casa teve momentos sem ruído de fundo? A criança dormiu bem? Usou fone? Pediu repetição muitas vezes? Teve irritação ao desligar? Com esse mapa, fica mais fácil ver padrões e entender se as telas estão ajudando ou atrapalhando.
Também observe ganhos: mais contato visual, mais perguntas, mais iniciativa para contar coisas, melhor tolerância a espera, melhora de sono, mais interesse por livros e jogos. Essas mudanças costumam aparecer quando a rotina fica mais equilibrada. Se apesar das mudanças persistirem sinais de atraso ou dificuldade, busque avaliação. Comunicação é saúde, inclusão e qualidade de vida, e cuidar cedo faz diferença.
Dicas finais em formato de pontos rápidos para aplicar hoje
Defina momentos sem tela fixos
Escolha pelo menos dois momentos por dia, como refeições e a hora antes de dormir, e mantenha como regra da casa.
Prefira tela acompanhada a tela solitária
Quando possível, assista junto, converse, faça perguntas e conecte com experiências reais.
Reduza ruído de fundo
Evite TV ligada sem intenção, isso melhora a qualidade da escuta e aumenta conversas espontâneas.
Cuidado com fones
Evite para pequenos, limite tempo, mantenha volume moderado e prefira ambientes silenciosos para não precisar aumentar o som.
Substitua com brincadeiras de linguagem
Conte histórias, faça teatrinho, jogos de turnos, pistas verbais, adivinhações e leitura diária.
Acompanhe sono e comportamento
Melhora de sono costuma trazer melhora de atenção, fala e capacidade de aprender.
Não adie avaliação se houver sinais
Suspeitou de perda auditiva, atraso de linguagem, ou dificuldades escolares de escuta, procure avaliação fonoaudiológica e audiológica.
Conclusão
O impacto do uso excessivo de telas em crianças não se limita a tempo, ele envolve qualidade das interações, ambiente sonoro, sono, autorregulação e oportunidades reais de comunicação. Ao reduzir o uso passivo, mediar o conteúdo, proteger a audição e aumentar momentos de conversa e brincadeira, a família cria um contexto em que a fala e a linguagem têm espaço para florescer. A tecnologia pode existir, mas a infância precisa de voz, escuta, vínculo e presença, porque é nesse terreno que a comunicação se torna ferramenta de aprendizagem, inclusão e bem-estar ao longo da vida.